Terça-feira, 30 de Setembro de 2008

Como funcionam os trilhos neuronais envolvidos na ansiedade e no medo?

José Miguel Pêgo, médico anestesiologista e investigador na Universidade do Minho, defendeu muito recentemente a sua tese de doutoramento sobre a influência do stress na estrutura da amígdala, estrutura cerebral com importância nas emoções. Para além de ter identificado uma dicotomia no comportamento induzido pelo stress, o investigador descreveu ainda a importância dos vários componentes da resposta ao stress nas alterações estruturais envolvidas em comportamentos como o medo e a ansiedade. No futuro, o cientista vai continuar a desenvolver trabalho nesta área, mas vai ainda iniciar uma nova linha de investigação em Portugal sobre a toxicidade dos anestésicos gerais no período neonatal

 

Como é que comportamentos emocionais, como o medo e a ansiedade são afectados pelo stress crónico? Esta foi a pergunta de partida para a tese de doutoramento do médico José Miguel Pêgo, investigador na Escola de Ciências da Saúde da Universidade do Minho.

Uma dos resultados dos vários estudos efectuados em ratinhos é que o stress crónico induz comportamento ansioso, mas não afecta o comportamento do medo. Essa ansiedade induzida pelo stress está correlacionada com um aumento do volume do núcleo da estria terminal, uma estrutura da chamada amígdala estendida e que está envolvida na regulação do eixo hipotâlamo-pituitário-suprarenal. Esse aumento não acontece na amígdala propriamente dita e deve-se a uma remodelação dendrítica.

Segundo disse à Edit on Web José Miguel Pêgo, "o ponto principal deste trabalho é que se encontrou uma dicotomia entre o comportamento de medo e a ansiedade (que estão relacionados, mas são diferentes em determinados aspectos) nos animais sujeitos a tratamento com corticosteróides [mediadores hormonais que activam os receptores cerebrais implicados na regulação do comportamento emocional] ou stress crónico imprevisível [CUS, na sigla em inglês]. Esta dicotomia encontrou uma correlação com uma dicotomia de alterações morfológicas que ocorrem no núcleo da base da estria terminal [BNST, na sigla em inglês] mas não na amígdala".

"Iniciámos sempre as investigações através do estudo da amígdala, porque seria a estrutura mais intimamente associada ao comportamento emotivo, segundo a literatura. A ausência de alterações significativas e a dicotomia de comportamento levou-nos a estudar o BNST, que estabelece a ligação entre todo o sistema límbico (no qual se inclui a amígdala) e os centros que regulam a resposta ao stress e o comportamento, sobretudo o comportamento ansioso", acrescenta o investigador.

Recorrendo a métodos como estimativas estereológicas do núcleo da estria terminal e da amígdala e a reconstruções a três dimensões de neurónios, "o que é surpreendente nestes resultados é que sempre se pensou que a amígdala estaria envolvida nos vários aspectos do comportamento emotivo, embora o mais estudado seja o medo (sobretudo por ser mais fácil de estudar). No entanto, também se sabe, após os vários estudos de Michael Davis que o BNST estará mais envolvido na ansiedade do que a amígdala", frisa o investigador.

Sobre o resultado de acordo com o qual não houve alterações estruturais significativas na amígdala quando sujeita a stress induzido ou a tratamento com corticosteróides, José Miguel Pêgo e a sua equipa acreditam que a explicação reside no facto da "amígdala estar envolvida em aspectos emocionais do comportamento (medo) que são essenciais à sobrevivência do indivíduo (porque estabelecem respostas imediatas) e, por isso, mais resistente às alterações induzidas pelo stress. O BNST parece ser mais plástico, além de estar na confluência de várias redes neuronais que modificam o comportamento do indivíduo em resposta ao stress. Estas características parecem ideais para gerar comportamentos de apreciação global das situações e elevar os níveis de alerta perante as condições do dia-a-dia".

Como estes resultados identificaram em detalhe as alterações estruturais provocadas pela exposição ao stress (ao nível da morfologia dendrítica e do número de sinapses), será possível sugerir novos alvos terapêuticos.

Outro dos objectivos do trabalho de José Miguel Pêgo era saber qual a importância dos mediadores hormonais e centrais da resposta ao stress e o seu papel nas alterações neuroanatómicas. Confirmou-se que os corticosteróides medeiam os efeitos comportamentais e estruturais ao stress no BNST.

Mas porque há sempre um gene envolvido, José Miguel Pêgo quis ainda caracterizar os neurónios activados e a expressão dos genes de activação no núcleo do BNST em condições padrão ideais e após a exposição estímulos que desencadeiam a ansiedade. Para isso usou técnicas de extracção de áreas celulares a laser e mapeou a expressão do gene c-fos nas diferentes divisões nucleares do BNST em dois grupos de ratos (grupo controlo e grupo de ratos «stressados) a fim de comparar a sua activação.

Verificou-se que o gene c-fos é expresso em cerca de 30 minutos, o que ocorre quer em condições padrão ideais, quer em resposta a estímulos. Constatou-se ainda que o stress crónico altera a activação específica no núcleo do BNST, indicando que tem um padrão heterogéneo de activação.

 

 

Fonte:Filipa M. Ribeiro ©2008

 

Link:http://www.editonweb.com/Noticias/NoticiasDetalhe.aspx?nid=1556&editoria=7

 

 

 

 

 


publicado por neuropsicologiaonline às 11:20
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